A vida na Atlântida

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Vida na Atlântida
Vida na Atlântida

Podemos tirar conclusões que nos permitam traçar um quadro relativamente fiável da vida na Atlântida no período da sua última fase — a que precedeu o afundamento final. Colhemos algumas informações relativamente às suas condições durante o período inicial, e temos agora de abordar a sua “reconstrução” enquanto comunidade, provavelmente num nível de civilização muito próximo do México à época da chegada de Cortez ou da China antes da era de intervenção europeia, com a excepção, claro, de que o povo atlante desconhecia todo o tipo de metais.

No decurso dos séculos a face da ilha-continente deve ter passado por grandes alterações, sob a acção civilizadora de uma raça eminentemente bem equipada para as tarefas do progresso. O relato de Platão fala de canais com mais de mil e quinhentos quilómetros de comprimento e de estradas que, evidentemente, se estendiam muito para o interior do território. A circunstância de o território se encontrar dividido em cantões, e de cada proprietário de terras ser obrigado por lei a fornecer a sua quota de homens para o exército e para a armada, leva-nos à conclusão de que uma parte muito considerável da ilha estaria cultivada e tinha também uma população de marinheiros bastante numerosa. Mas dificilmente podemos duvidar de que existiam também grandes extensões de terrenos selvagens e desertos e que, na verdade, a maior parte da ilha ainda estaria sob as condições de tundra que prevaleciam na Europa na época em questão. A presença de uma grande cadeia montanhosa deve ter afectado tanto a agricultura como as condições climatéricas gerais, e é possível que a Atlântida tenha sido densamente florestada em algumas partes.

Templo de Clito e Poseidon
Templo de Clito e Poseidon

Não sabemos de outras cidades para além da capital, mas não podemos duvidar da sua existência. É possível formar uma ideia geral do estilo de arquitectura em voga, tanto a partir do relato de Platão como das pesquisas da já mencionada Escola Anglo-Hispânica de Arqueologia em Huelva, Espanha. Platão afirma que o estilo de arquitectura assumido pelos atlantes era “bárbaro” e isto, para um grego, significava quase certamente “oriental”. Ele diz-nos que o exterior do grande templo de Clito e Poseidon era decorado com prata, que os seus pináculos cintilavam com ouro e que o interior tinha tectos de marfim, ouro, prata e oricalco, ou cobre. Mas, em vista da completa ignorância de todos os metais por parte dos azilenses, esta descrição é certamente enganadora. É muito mais seguro basearmo-nos nos resultados das recentes escavações espanholas em Huelva e considerar a arquitectura atlante como sendo do tipo “ciclópico”, tal como é possível encontrar em Micenas e noutros locais.

Estes edifícios são construídos com grandes blocos de pedra talhada com precisão, com bases e encaixes bem ajustados, mas de tamanhos diferentes. Normalmente usavam-se monólitos enormes nas entradas. Mas o termo “ciclópico” é também usado para descrever paredes construídas com blocos poligonais que, em muitos casos, são unidos com grande perícia e cuidado. Existem exemplos deste tipo de alvenaria não só na Grécia mas também em muitos locais na Etrúria e na América, e não pode haver dúvidas quanto à extrema antiguidade do método empregue.

Podemos encontrar exemplos deste tipo particular de arquitectura em muitas partes da Europa e Ásia e, na verdade, parece claro que não são mais do que uma variante do antigo método atlante de construção de edifícios. Quem o introduziu na Europa, de onde provavelmente se espalhou para Leste, foram indubitavelmente os proto-iberos, a “Raça Mediterrânica” de Sergi, e as localizações mais antigas onde este método foi descoberto parecem justificar a presunção de que foi introduzido a partir de uma área ocidental. É certo que não progrediu em sucessão histórica de Leste para Oeste, uma vez que os iberos, os construtores destes veneráveis monumentos, não tiveram origem na região oriental do Mediterrâneo. O mesmo se pode dizer dos toscos monumentos de pedra geralmente associados ao trabalho ibero, os círculos de pedras, menires e dólmenes da Grã-Bretanha, França e Península Ibérica, as torres da Escócia, os grandes fortes de pedra da Irlanda, as nuraghi ou habitações circulares da Sardenha e os talayats semelhantes das Ilhas Baleares. Foi também provado que os toscos monumentos de pedra encontrados em Portugal são praticamente os únicos que se encontram perto da costa do Atlântico, e há muito poucos para o interior.

Dolmen localizado no sul do Reino Unido
Dolmen localizado no sul do Reino Unido

Também foi demonstrado[1] que o plano arquitectónico geral da cidade da Atlântida, tal como é descrito por Platão, parece ter sido copiado por todo o lado. É bem sabido que o plano e o traçado das grandes cidades da antiguidade eram frequentemente passados às suas colónias, e muitas localidades, tanto na Europa como na África, parecem ter sido copiadas do modelo atlante. Destas, a mais notável é Cartago, cujo plano é quase idêntico ao da Atlântida. Na verdade, tanto a Atlântida como Cartago tinham uma cidadela numa colina, circundada por zonas de terra e água, um canal que levava ao mar e pontes sobre os fossos, fortificadas com torres. Em ambos os casos as docas eram cobertas, as cidades eram rodeadas por três muralhas, ambas tinham grandes cisternas para fornecimento de água potável e para banhos, e ambas eram guardadas por um grande pontão, que escondia a entrada para o porto.

Este traçado circular, “uma ilha dentro de uma ilha”, era anteriormente muito comum na África Ocidental. Hanno, o viajante cartaginês, descobriu um plano similar naquela região, e é também possível encontrá-lo na América, especialmente no antigo traçado da cidade azteca de Tenochtilan (actual Cidade do México), bem como noutros lados.

Levanta-se também a questão da presença de pirâmides na Atlântida. Parece pouco provável que lá se encontrassem efectivamente pirâmides, mas é bem possível que a pirâmide no Egipto e na América seja apenas uma reminiscência da colina sagrada da Atlântida. No Egipto, México e Peru da antiguidade certas colinas eram consideradas especialmente sagradas, como lar de poderosos seres sobrenaturais. No México, a montanha era considerada o lar da Deusa da Fertilidade, e em algumas partes desse país ela era revestida com pedra, tal como a pirâmide egípcia, embora na região habitada pelos Construtores de Cerros, no Mississipi, fosse feita apenas de terra. O elo entre a pirâmide mexicana feita de alvenaria e o simples monte de terra é fornecido pelo cerro sagrado da deusa Coatlicue, perto da , pirâmide do seu filho, Uitzilopochtli, no México. Nestas pirâmides americanas eram sepultadas personagens importantes, tal como acontecia nas egípcias, que eram também um desenvolvimento óbvio da ideia da montanha sagrada. Na verdade, várias das pirâmides egípcias eram conhecidas por nomes como “Montanha de Ra” e títulos semelhantes.

Deusa Coatlicue
Deusa Coatlicue

As pirâmides egípcias e americanas têm assim uma História evolucionária semelhante. A ideia deve ter nascido de um centro comum. A origem de ambas parece remontar à colina sagrada da Atlântida. Mais ainda, encontraram-se pirâmides nas Canárias e nas Antilhas, a ligação insular entre a Europa e a América, da qual a Atlântida é o elo desaparecido.

O abastecimento de comida dos atlantes foi explicado por Platão. Ele diz-nos que a ilha produzia uma abundância de raízes, frutos, bagas e milho, mas nesta última parte ele é, talvez, corrigido por Diodoro que, ao escrever sobre a ilha Hespéria, que neste caso deve ser identificada com a Atlântida, diz que o milho era desconhecido dos seus habitantes. Supõe-se que o milho, o cereal de Ceres ou Deméter, a deusa da agricultura de Creta, terá sido primeiro cultivado nesse país, ou no Egipto, a partir de uma “erva” relativamente selvagem, que se crê ser nativa do Fayyoum ou sul da Palestina. Mas a sua origem está envolta num mistério impenetrável, e o facto de estar tão intimamente associado aos Mistérios Eleusinianos e aos de Osíris, ambos com origem ociden­tal, pode, talvez, ser considerado como uma boa evidência de que teve origem na Atlântida, embora não seja sensato dogmatizar esse ponto. Já mencionámos o fruto de casca dura cultivado na Atlântida, que fornecia ao mesmo tempo polpa, bebida e unguento e era, obviamente, o coco, ou alguma espécie relacionada.

A comida animal era fornecida por gado, grandes rebanhos de ovelhas e cabras, e peixe. As grandes planícies dariam pasto abundante aos animais ruminantes, mas não é provável que o cavalo continuasse a ser considerado um animal para alimento, como em épocas mais primitivas, depois de se ter tornado uma besta de carga. O mesmo se aplica ao elefante. É muito provável que este animal fosse utilizado na Guerra. Recordemos que os cartagineses, que tinham muitas memórias atlantes, o utilizaram com este fim contra os romanos e as tribos de iberos de Espanha.

Deusa Deméter
Deusa Deméter

Uma ideia sobre os costumes e indumentárias dos atlantes só pode ser formada a partir dos desenhos que os azilenses nos deixaram de si próprios. Estes parecem, a este escritor, assemelhar-se de alguma forma à indumentária dos cretenses do período minóico. Na maioria das gravuras do Paleolítico Superior na Europa os homens estão nus, mas o Homem de Laussel usa uma cinta estreita. As mulheres, contudo, nas pinturas espanholas, estão geralmente vestidas com uma saia que vai da cintura até um pouco abaixo dos joelhos, deixando a parte superior do corpo nua. Mas não seria razoável deduzir, a partir destas pinturas, que a nudez masculina quase total era universal, ou mesmo habitual. Os sacerdotes usariam certamente vestes cerimoniais, como se pode ver nas figuras dançantes de L’abri Megè, que vestem peles e usam máscaras animais, e o facto de muitos dos mortos estarem embrulhados em peles e jaquetas de couro, nas quais eram cosidas conchas, parece justificar a conclusão de que, em vida, usariam indumentárias semelhantes. Os toucados das estatuetas encontradas em Willendorf e Brassempouy são muito parecidos com os egípcios, e vários homens nas pinturas alpinas são representados com toucados de penas muito semelhantes aos que ainda se usam entre as tribos dos índios peles-vermelhas. Outros usam chapéus altos de forma triangular, não muito diferentes do toucado escocês, e algumas das mulheres ostentam chapéus cónicos feitos, talvez, de casca de árvore ou de pêlo. Alguns dos homens usam fitas com penas debaixo do joelho e nos tornozelos, como os massai do sudeste de África; e provavelmente ambos os sexos usavam ornamentos feitos de conchas e dentes, simples ou pintados. Na verdade, a indumentária geral dos azilenses parece ter sido semelhante em alguns aspectos à dos aztecas do México, bem como à dos povos mediterrânicos primitivos.

Possuiriam os atlantes uma literatura e, se sim, seria ela expressa em Documentos escritos ou apenas transmitida oralmente? Pela tendência geral da sua civilização, bem como de outras circunstâncias, somos tentados a acreditar que florescia entre eles uma literatura, tanto escrita como oral. Já vimos que os chamados seixos alfabéticos encontrados entre os vestígios azilenses são, muito provavelmente, representações da forma humana expressa de modo convencional e simbólico, mas isso não quer dizer que os azilenses mais civilizados da Atlântida não possuíssem algum sistema de escrita, hieroglífico ou pictórico. O mero facto de os azilenses da Europa possuírem algo na natureza de uma simbologia é prova bastante boa de que os seus contemporâneos na Atlântida tinham, pelo menos, avançado até ao uso de uma escrita pictórica semelhante àquela através da qual os aztecas do México se exprimiam, mantendo registos de tributos, fixando a data de festivais religiosos e até mesmo registando os factos da História, bem como as fantasias da ficção. Platão, ao declarar que as leis da Atlântida estavam gravadas numa coluna de oricalco, implica que eles possuíam algum sistema de escrita.

Seixos pintados de Mas d’Azil
Seixos pintados de Mas d’Azil

Sobre este assunto podemos, talvez, citar a opinião do Dr. T. Rice Holmes[2]: “Muitas pessoas ouviram falar vagamente dos seixos pintados e dos frescos de Mas d’Azil e das outras cavernas nos Pirinéus Ocidentais, que o arqueólogo veterano, Edouard Piette, explorou diligentemente durante muitos anos. Num dos objectos encontrados na caverna de Lorthet — uma gravação espirituosa em chifre de rena, que representa renas e salmões — vêem-se dois pequenos losangos, cada um com uma linha central no centro: “Justamente orgulhoso do seu trabalho”, diz Monsieur Piette, “o artista adicionou a sua assinatura.” Seja como for, outros exploradores exumaram da gruta de Placard, em Rochebertier, e das grutas de la Madeleine e Mas d’Azil chifres com sinais gravados que se assemelham exactamente a várias letras gregas e fenícias, e que podem ser comparados com os sinais que foram encontrados numa ilha do Pacífico. Estes sinais não são letras, mas símbolos; não estão combinados de modo a formar palavras ou inscrições. “Mas“, diz Monsieur Piette, “sendo símbolos, constituem de facto uma forma de escrita primitiva.” No entanto, uma verdadeira escrita é evidente num caco encontrado numa colónia neolítica em Los Murcielagos, em Portugal. Se se puder provar que este fragmento é da era neolítica, poderíamos concluir que, nessa época remota, a arte da escrita já era conhecida de pelo menos um ramo da estirpe mediterrânica.”

Se examinarmos a História da escrita e do simbolismo na Europa e na América, encontramos certos factos que podem, depois de utilizarmos todas as devidas cautelas, apontar para uma origem atlante de certos elementos nos símbolos e glifos, tanto europeus como americanos. Não se afirma de modo algum que o sistema alfabético europeu que utilizamos actualmente tenha outra origem que não a fenícia, com possíveis antecedentes egípcios. Mas a origem conhecida de todos os sistemas de escrita por simbolismo, a identidade de muitos símbolos europeus, egípcios e americanos que eram utilizados com o objectivo de comunicar, e a necessidade óbvia de pressupor para estes um elo de ligação situado numa localização atlântica são circunstâncias que pedem uma cuidadosa consideração.

Dr. Le Plongeon
Dr. Le Plongeon

O falecido Augustus Le Plongeon reclama ter encontrado uma identidade total entre as formas de escrita hieroglífica egípcias e centro-americana. Mas este escritor, enquanto estudante desta última, e com um conhecimento mais do que passageiro do sistema de escrita do Egipto, não consegue distinguir qualquer semelhança superficial entre a escrita egípcia e a escrita maia ou mexicana, e não pode subscrever as “traduções” efectuadas pelo Dr. Le Plongeon das inscrições e manuscritos Maias. É certo que existem afinidades, mas, quando forem reveladas, veremos que são muito mais profundas do que o Dr. Le Plongeon acreditava, e que foram comunicadas por canais muito diferentes daqueles que ele considerava que as tinham transmitido.

O facto de certos símbolos, descritos como “tectiformes” ou “em forma de tecto” por alguns antropólogos, surgirem nas representações pintadas de búfalos, tanto nas grutas aurignacenses como nos desenhos dos índios das planícies da América, é um bom ponto central para começar esta discussão e serve para provar quase imediatamente uma ligação simbólica entre a Europa e a América. É óbvio que a semelhança não é fortuita, e isto fica ainda mais claro pela circunstância de ocuparem sempre a mesma posição no corpo do animal.

Diz Macalister[3]: “Reivindicou-se que algumas destas marcas ou grupos de marcas provavam a espantosa teoria de que o homem magdalenense desenvolvera uma forma de escrita através de sinais simbólicos.” No entanto, se as pinturas de Alpera e de outros locais revelam alguma coisa ao estudante familiarizado com as origens da pictografia, é que aqueles que as criaram estavam prestes a descobrir um sistema desse género. Têm tanto da natureza da pictografia como os desenhos semelhantes dos índios americanos, australianos e dos esquimós, ou do bem conhecido livro de histórias azteca geralmente chamado «Codex Nuttall», no qual se conta a história da vida de um herói com imagens junto das quais aparecem apenas alguns símbolos como “texto”. Em partes da grande pintura de Alpera aparecem símbolos precisamente iguais aos encontrados nos seixos pintados azilenses, o que prova conclusivamente que estes eram utilizados como símbolos, e provavelmente símbolos de nomes, e por cima destes, em mais do que um local, há traços que correspondem evidentemente a números, e que estão associados aos símbolos-nome em questão. Mais ainda, neste caso específico, o instrumento “tectiforme” está evidentemente associado a estes nomes e numerais, e os numerais são muito semelhantes aos usados entre os maias para indicar o número “cinco”. Toda a cena representada, creio, não é apenas o registo de uma grande caçada, mas também os nomes de alguns dos heróis que tomaram parte nela e o número de animais apanhados. Ora, praticamente os mesmos símbolos que aparecem na arte azilense podem ser encontrados nas pictografias das tribos de índios norte-americanos. Os símbolos dos índios americanos estão garantidamente relacionados com os sistemas de escrita mais altamente estilizados dos mexicanos e dos Maias, tal como os azilenses estão relacionados, por outro lado, com os do Egipto ou da Babilónia. Não podemos chegar então a outra conclusão senão a de que os primitivos símbolos pictóricos do Velho e do Novo Mundo devem ter tido origem numa fonte comum, provavelmente na região atlântica. Se o negarmos, temos então de presumir que os símbolos do Velho e do Novo Mundo têm origens espontâneas e separadas, ou que estes símbolos azilenses chegaram à América através da Ásia.

Pintura de Alpera
Pintura de Alpera

A primeira hipótese é hoje em dia geralmente rejeitada pelos estudantes de simbologia pelas razões óbvias de que o homem não é de forma alguma um animal “original”, e as semelhanças simbólicas são regra geral demasiado precisas para serem fortuitas. A segunda hipótese é igualmente frágil, porque descobrimos que todos os sistemas de pictografia da América estão fortemente estabelecidos no lado oriental do continente e na costa ocidental apenas se encontram os seus vestígios mais modernos e degenerados.

Argumentando então a partir destes dados, parece razoavel­mente claro que o primitivo sistema simbólico de pintura, utilizado tanto na Europa como na América, deve ter tido o seu início em alguma área de onde possa facilmente ter sido transmitido para ambas. Esta área só podia ter existido no Oceano Atlântico. Na verdade, como já foi demonstrado[4], uma proporção considerável dos símbolos usados entre os Maias tinha uma ligação definitiva com a tradição cataclísmica. Mais ainda, estes símbolos são agora conhecidos pelos estudantes como “calculiformes” ou em forma de seixo, e parecem ter-se desenvolvido a partir de seixos pintados, tal como a escrita azilense.

Não há portanto nenhuma boa razão para negar aos atlantes a arte da pictografia, pelo menos numa forma elementar, e provavelmente tão bem desenvolvida como aquela que serviu os fins do grande e remoto Império Azteca. Sem dúvida que tinham os seus livros civis e religiosos, gravados em pedra ou pintados nas paredes das cavernas. Tal como já vimos, as Ilhas Canárias têm uma grande quantidade de cavernas “onde”, diz Osborn[5], “os tectos eram cobertos com uma camada uniforme de ocre vermelho, enquanto as paredes eram decoradas com vários desenhos geométricos em vermelho, preto, cinzento e branco”. Rêné Verneau, um antropólogo francês de vasta experiência, escreve sobre elas: “Todas estas paredes (na Gruta de Goldar) estão decoradas com pinturas[6].” Assim, na última parte que resta da Atlântida, surge a prova de que os antigos habitantes possuíam o seu próprio simbolismo. Todo o simbolismo é meramente uma fase na progressão para a expressão escrita, e as imagens são pensamentos colocados à vista, tanto como as palavras ou páginas impressas. Além do mais, não é provável que os habitantes destas cavernas, pastores ou caçadores, tivessem o mesmo nível de cultura dos habitantes das cidades da Atlântida, tal como os pastores dos Vosgues não são iguais a nível cultural aos literatide Paris, nem os cowboys do faroeste são pares intelectuais dos académicos de Boston ou Nova Iorque.

No que diz respeito ao comportamento e moralidade do povo da Atlântida, podemos falar com grande liberdade. Todas as autoridades estão de acordo em dizer que esta moralidade não era de modo algum digna de louvor. Platão, na verdade, pinta um quadro bastante negro da moral dos Filhos de Poseidon. Mas temos de nos lembrar que ele é, nalguns aspectos, pouco imparcial, uma vez que estava obviamente a utilizar o poder atlante para calçar o seu Estado nativo de Atenas, comparando-os um com o outro, de modo a mostrar que os Poseidonianos, a prole do desprezível deus do mar, não eram de forma alguma iguais, em moralidade ou coragem, ao povo de Palas Atena. Há, contudo, outras boas razões para podermos encarar os últimos atlantes, pelo menos, como um povo que não era de modo algum isento de culpa. Tal como já disse antes, parece perfeitamente possível que a Atlântida possa ter sobrevivido até uma época consideravelmente posterior à que Platão indica para o seu afundamento e, se for assim, temos um período de tempo em que o seu povo pode ter avançado do relativo estado de barbárie, que indubitavelmente o distinguia em tempos azilenses, para uma condição de complexidade mental muito superior ao que era possível nessa era.

Se assim foi, a invasão que perpetraram do solo dos seus vizinhos fala desfavoravelmente do seu estado de espírito geral. Da mesma forma, o desporto cruel em que atiçavam os touros com cães, desporto ao qual parece que se dedicavam, não nos permite outra imagem que não seja de brutalidade, e condiz mal com a sua alegada cultura.

Não será possível, então, que os vícios geralmente atribuídos aos “antediluvianos” nos escritos sagrados de muitos povos não passem de uma memória do comportamento flagrante dos atlantes, que pereceram também por obra de um dilúvio? As Escrituras asseguram-nos que a raça divina ou celestial se tornara corrupta através de casamentos com os habitantes terrenos do mundo. “Os filhos de Deus (ou raça civilizada) viram que as filhas dos homens (aborígenes) eram belas; e escolheram como esposas todas aquelas que lhes agradaram.” Foi precisamente isto que Poseidon e os seus filhos fizeram. Também, segundo nos é dito, “nesse tempo os gigantes (titãs) habitavam a terra”. E os homens tornaram-se tão maus que o Criador resolveu destruí-los.

Noé
Noé

No septuagésimo primeiro capítulo do «Corão», Noé recita uma oração que mostra claramente que, segundo as tradições dos muçulmanos, a raça antediluviana pereceu por causa dos seus pecados. “Senhor, não deixeis nenhuma família de descrentes sobre a terra, pois se os deixardes eles seduzirão os vossos servos, e gerarão apenas uma prole perversa e descrente.” Mas esta oração só é pronunciada por Noé quando ele vê que os antediluvianos são imorais e incorrigíveis durante os novecentos e cinquenta anos que se diz que os põe à prova. Noé exclama também: “Senhor, perdoai-me e aos meus pais, e a todos os que entrarem em minha casa, e traz aos injustos apenas destruição.” Sobre este assunto os comentadores orientais do «Corão» dividem-se, alguns defendendo que Noé se refere aqui à sua própria casa, e outros ao templo que ele construíra para veneração de Deus, ou à Arca então em progresso.

O «Corão» afirma que Noé, enquanto construía a Arca, respondia muitas vezes à zombaria dos descrentes deste modo: “Embora zombais de nós agora, nós zombaremos de vós depois, tal como zombais de nós; e sabereis certamente sobre quem será infligido o castigo, que vos cobrirá de vergonha, e sobre quem cairá um castigo duradouro.”

No épico babilónico de Gilgamesh, o deus Ea enfurece-se com a natureza pecaminosa do povo de Suruppak, e precipita sobre ele uma inundação tão desastrosa que “não aparecia nenhum continente no deserto de água”. O mito grego de Deucalião conta que os antediluvianos “eram insolentes e dados a acções injustas; não respeitavam juramentos, não eram hospitaleiros com estranhos nem davam ouvidos aos suplicantes; e esta perversidade complicada foi a causa da sua destruição. De repente a terra vomitou uma grande quantidade de água […] e todos os homens foram destruídos.” Ovid, no seu relato latino do Dilúvio, coloca na boca de Júpiter as palavras: “Repetia-se interminavelmente a culpa agravada que surgia por todo o lado.” A lenda egípcia relata que o deus Tem soltou as águas do abismo primevo sobre a terra para destruir a humanidade devido à sua malvadez. Vishnu, no mito hindu, envia uma inundação sobre a terra porque “todas as criaturas o tinham ofendido”. Na lenda bretã, a cidade de Ys é coberta pelas águas devido à dissolução da sua princesa, “que fizera uma coroa dos seus vícios, e tomara como pajens os sete pecados capitais”. Num mito dos índios Arawak, o deus Aimon Kondi castiga o mundo com fogo, seguido de uma inundação, por causa dos defeitos dos homens, e inúmeros outros mitos falam do afogamento da raça humana pela sua perversidade. Parece muito improvável que um mito tão disseminado possa ter surgido sem alguma causa concreta. É muito mais provável que evidências tão avassaladoramente unidas tenham por trás uma condição histórica real.

Destruição da Atlântida
Destruição da Atlântida

Uma das evidências não menos valiosas na América é o mito da destruição dos maus, contado por Mr. Jeremiah Curtin na sua obra «Creation Myths of Primitive America», tal como lhe foi descrito por um índio americano:

“Havia um mundo antes deste em que vivemos hoje. Esse era o mundo do primeiro povo, que era muito diferente de nós. Esse povo era muito numeroso, tão numeroso que se pudéssemos contar todas as estrelas do céu, todas as penas dos pássaros, todos os pêlos dos animais, não seriam tão numerosos como o primeiro povo.”

“Este povo viveu muito tempo em paz, em concórdia, em harmonia, em felicidade. Nenhum homem sabe, nenhum homem pode dizer, quanto tempo viveram assim. Por fim as mentes de todos, excepto de um pequeno número, mudaram. Entraram em conflito — um ofendia o outro, consciente ou inconscientemente, um feria o outro, com ou sem intenção, um queria alguma coisa especial, outro queria também essa mesma coisa. O conflito instalou-se e, por causa disso, seguiu-se um tempo de actividade e luta, para o qual só houve fim quando a grande maioria das primeiras pessoas — todas, excepto um pequeno número — foi transformada nos vários tipos de seres vivos que existiram ou existem hoje na terra, excepto o homem — ou seja, todas as espécies de animais, pássaros, répteis, peixes, vermes e insectos, bem como árvores, plantas, ervas, rochas e algumas montanhas. Foram transformados em tudo o que vemos na terra ou no céu.”

“O pequeno número de membros do primeiro povo que não discutiu, esses grandes primeiros homens dos velhos tempos, que permaneceram unidos e harmoniosos, deixaram a terra, navegaram para Oeste, passaram a linha onde o céu desce até à terra e toca nela, seguindo para lugares distantes; aí ficaram, ou retiraram-se para regiões superiores, e nelas viveram felizes, em concordância, e aí vivem ainda hoje, e viverão da mesma forma para sempre.”

Certamente que uma memória tão universal da devassidão dos atlantes não pode de modo algum ter nascido de uma invenção casual. Vemos que fala de um mundo submerso pelos seus vícios, como aconteceu à Atlântida. É portanto possível, como veremos mais tarde, falar de evidências pré-platónicas da história atlante.

NOTAS:

[1]  «Problem of Atlantis», capítulos II e XVI.

[2]  «Ancient Britain», pp. 99-100.

[3]  Obra citada, p. 479.

[4] «The Problem of Atlantis», pp. 135-139.

[5]  «Men of the Old Stone Age», pp. 454-455.

[6]   «Cing annes de séjour aux iles Canaries», p. 47.

Fonte: LIVRO: «A História da Atlântida» de Lewis Spence

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