A Geografia da Atlântida

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Localização da Atlântida

Devemos agora considerar as questões geográficas relacionadas com a localização e topografia da Atlântida. Inevitavelmente ligado a estas está o problema concreto da sua existência.. Não estamos aqui a lidar com uma Grécia ou uma Roma, um Egipto ou uma Assíria, mas sim com um continente submerso, cuja mera existência é, em alguns quadrantes, energicamente negada. Em primeiro lugar, pois, antes de tirarmos conclusões relativas à sua posição geográfica e características fisiográficas, a partir das fontes literárias ao nosso dispor, somos obrigados a examinar as provas geológicas que possuímos da existência da Atlântida. Esta existência deve, na verdade, ser satisfatoriamente demonstrada antes que possamos encarar a ilha da Atlântida como sujeito apropriado de algo que se aproxime de uma tese histórica.

As provas geológicas da existência da Atlântida são extensas, e podemos aqui apenas resumi-las. É possível encontrar um relato completo nas minhas obras anteriores, «The Problem of Atlantis» e «Atlantis in America». Admite-se aqui que a única porção de tempo geológico definitivamente relevante para a questão é a época Quaternária, que inclui o Pleistoceno ou Idade do Gelo, e cujo início pode ser estabelecido, para fins práticos, há cerca de quinhentos mil anos. O Quaternário está dividido em quatro épocas glaciares e uma época pós-glaciar.

É apenas nesta época pós-glaciar, que provavelmente terá começado há cerca de vinte e cinco mil anos, que se encontra na Europa alguma forma humana semelhante ao homem moderno. Assim, se queremos propor uma Atlântida povoada por seres humanos equiparáveis aos modernos, o período em que o devemos fazer está confinado aos últimos vinte e cinco mil anos da História europeia. Será que a geologia moderna sustenta a probabilidade da existência de um continente atlante em qualquer altura durante este período?

Pierre Termier, director científico da Carta Geológica de França, é apenas um entre um grupo crescente de geólogos que acreditam piamente que existiu um grande continente atlante durante o período em questão[1]. Com a gradual recolha de novas evidências relativas à geologia e à biologia da região atlântica, a teoria da existência de uma tal massa terrestre assumiu um aspecto completamente diferente. Estas evidências não estão dependentes das conjecturas vagas de visionários, ou das afirmações dogmáticas do tipo de arqueólogos que distorce a tradição e a filologia para se assemelharem a testemunhos, mas sim de considerações das mais racionais e credíveis. O facto de ter existido em determinada altura um continente atlante que ocupava o actual golfo oceânico entre a Europa e a América é uma verdade científica aceite hoje em dia por geólogos de todos os matizes de opinião, e a única questão sujeita a debate que ainda permanece refere-se ao período exacto da história geológica em que este continente se terá desenvolvido.

O leito do Atlântico é a parte mais instável da superfície terrestre, diz M. Termier. A sua região oriental é uma grande zona vulcânica. Na depressão euro-africana abundam os vulcões marítimos e insulares. As suas ilhas são maioritariamente formadas por lava, e uma formação semelhante ocorre na região americana ou ocidental deste oceano. O leito do Atlântico, garante-nos esta autoridade na matéria, ainda está em movimento, na sua zona extremo-oriental, numa extensão com cerca de três mil quilómetros de largura, que inclui as ilhas da Irlanda, dos Açores, das Canárias, da Madeira e de Cabo Verde. Em qualquer parte desta zona podem, a qualquer altura, estar a ocorrer cataclismos submarinos não detectados.

M. Termier acredita que existiu anteriormente um continente norte-atlântico, que incluía a Rússia, a Escandinávia, a Grã-Bretanha, a Gronelândia e o Canadá, ao qual foi mais tarde acrescentada uma vasta faixa, composta por grande parte da Europa Central e Ocidental e uma porção imensa dos Estados Unidos. “Havia também” diz ele, “um continente sul-atlântico ou afro-brasileiro, que se estendia para Norte até à fronteira Sul do Atlas, para Leste até ao golfo Pérsico e ao canal de Moçambique, para Oeste até à fronteira oriental dos Andes e até às serras da Colômbia e da Venezuela. Entre estes dois continentes passava a depressão do Mediterrâneo, esse antigo sulco marítimo que forma uma escarpa em torno da Terra desde o princípio dos tempos geológicos, e que vemos tão profundamente assinalado no actual Mediterrâneo, no mar das Caraíbas e no mar Sunda ou das Flores. Uma cadeia de montanhas mais larga do que a cadeia dos Alpes e talvez, em certas partes, tão alta como os majestosos Himalaias, ergueu-se em tempos nas costas do continente norte-atlântico, abarcando os Vosges, o Planalto Central de França, a Bretanha, o Sul de Inglaterra e da Irlanda, e também a Terra Nova, a Nova Escócia e, nos Estados Unidos, toda a região dos Apalaches.”

O fim desta era continental, pensa M. Termier, surgiu durante o Período Terciário, o anterior ao Quaternário, altura em que esta massa terrestre, limitada a sul por uma cadeia montanhosa, foi submersa muito antes do colapso dos territórios vulcânicos dos quais os Açores são os últimos vestígios. O sul do oceano Atlântico esteve igualmente ocupado durante muitos milhares de séculos por um grande continente, agora engolido pelo mar. Estes movimentos de depressão ocorreram provavelmente em vários períodos, mais ou menos distantes. Na Europa da era Terciária estava a desenvolver-se o movimento que daria origem à cadeia montanhosa Alpina. Até onde se estendia esta cadeia na região atlântica? Haveria algum fragmento suficientemente elevado para se erguer durante alguns séculos acima do nível das águas? M. Termier responde a esta pergunta pela afirmativa.

M. Termier
M. Termier

Ele crê que a geologia de toda a região atlântica se alterou singularmente no decurso dos períodos mais recentes da História da Terra. Durante o período Secundário houve inúmeras depressões, o período Terciário assistiu à aniquilação das áreas continentais, e subsequentemente apareceu uma nova disposição, cuja orientação geral não era leste e oeste como anteriormente, mas sim norte e sul. Perto da costa africana, defende ele, houve sem dúvida movimentos importantes durante a era Quaternária, enquanto outras alterações tiveram indubitavelmente lugar na verdadeira região oceânica. “Geologicamente falando” diz ele, “a teoria platónica da Atlântida é muito provável […] É perfeitamente razoável acreditar que, muito depois da abertura do estreito de Gibraltar, ainda existiam certas destas terras emersas e, entre elas, uma ilha maravilhosa, separada do continente africano por uma cadeia de ilhas mais pequenas. Resta apenas provar uma coisa – que o Cataclismo que causou o desaparecimento deste território foi posterior ao aparecimento do homem na Europa Ocidental. O Cataclismo é indubitável. Viveriam então homens que pudessem sobreviver a essa reacção e transmitir a memória da mesma? É essa a questão. Não creio, de todo, que seja uma questão insolúvel, embora me pareça que nem a geologia nem a zoologia a poderão resolver. Estas duas ciências parecem já nos ter dito tudo o que nos podem dizer, e é da antropologia, da etnografia e, por fim, da oceanografia que aguardo agora a resposta final.”

Criticando esta afirmação, o Professor Schuchert escreve[2]: “Os Açores são verdadeiras ilhas vulcânicas e oceânicas, e é quase certo que nunca tiveram qualquer ligação terrestre com os continentes de ambos os lados do Atlântico. Se existe alguma verdade no excitante relato de Platão, devemos procurar a Atlântida na costa ocidental de África, e aqui vemos que cinco das ilhas de Cabo Verde e três das Ilhas Canárias têm rochas que são, inconfundivelmente, iguais àquelas comuns nos continentes. Levando também em consideração as plantas e animais destas ilhas, muitos dos quais têm afinidades com os euro-mediterrânicos do final do período Terciário, vemos que as evidências parecem indicar claramente que Cabo Verde e as Ilhas Canárias são fragmentos de uma África maior […] No entanto, se existem evidên­cias que possam revelar que esta fractura e separação da África Ocidental teve lugar tão subitamente como Platão relata, ou que ocorreu há cerca de dez mil anos, estas ainda são desconhecidas dos geólogos.”

O Professor R. F. Scharff, de Dublin, que tem talvez contribuído com mais dados valiosos para a literatura da investigação atlante do que qualquer outro cientista vivo, conclui que a Madeira e os Açores estiveram ligadas a Portugal no Mioceno ou em finais do período Terciário, altura em que o homem podia já ter aparecido na Europa, e que, de Marrocos às Ilhas Canárias, e daí à América do Sul, havia uma vasta extensão de terra que se estendia até Santa Helena. Este grande continente, acredita, começou a aluir antes do Mioceno. Mas ele defende que as regiões mais a Norte persistiram, até os Açores e a Madeira ficarem isolados da Europa. “Acredito” diz ele, “que ainda estavam ligadas no princípio do Pleistoceno (Idade do Gelo) aos continentes da Europa e da África, numa altura em que é possível que o homem tivesse já feito a sua aparição na Europa Ocidental, podendo alcançar as ilhas por terra.”[3]

Professor R. F. Scharff
Professor R. F. Scharff

Entre estes geólogos modernos que defendem a teoria atlante encontra-se o Professor Edward Hull, cujas investigações o levaram a concluir que os Açores são os picos de um continente submerso que se desenvolveu no período do Pleistoceno. “A flora e a fauna dos dois hemisférios”, diz o Professor Hull, “apoiam a teoria geológica de que havia um centro comum no Atlântico, onde a vida começou, e que durante e antes da época glaciar o Oceano Atlântico era cruzado por grandes pontes de terra, a Norte e a Sul.” Acrescenta ainda: “Fiz esta dedução através de um estudo meticuloso das sondagens registadas nas cartas do Almirantado.” O Dr. Hull defende também a opinião de que, na altura em que este continente Atlântico existia, havia também uma grande crista ou continente Antilhano, que separava o mar das Caraíbas e o golfo do México daquilo a que se chama a Corrente do Golfo[4].

Estas considerações podem parecer sustentar a posição dos geólogos modernos de que o leito do Atlântico sofreu alterações constantes e que, na verdade, pode ter subido e afundado muitas vezes desde o período da última Idade do Gelo, como Sir William Dawson uma vez afirmou.

A partir destas evidências podemos concluir, com justificação, que a hipótese de ter existido anteriormente uma massa terrestre no oceano Atlântico não é, de modo algum, baseada em conjecturas. O facto de geólogos de renome terem arriscado as suas reputações, atestando de forma convicta a realidade de um anterior continente atlante, deve sem dúvida dar motivo para pensar àqueles que recusam impacientemente examinar sequer as probabilidades dos argumentos tão capazmente defendidos. Mas a consideração mais significativa que daqui emerge, é que as evidências dos especialistas modernos são quase na sua totalidade a favor da existência de uma massa ou massas terrestres relativamente recentes no Atlântico; e, se levarmos em conta todas as evidências, e a natureza das suas fontes, não parece estar para lá dos limites da crença humana que, num período provavelmente não anterior ao mencionado por Platão no seu «Crítias», a saber, 9600 a. C., este antigo continente ainda existisse parcialmente, embora já em processo de desintegração — que uma ilha de tamanho considerável, talvez o resto da “plataforma” africana, ainda existisse em frente da entrada do Mediterrâneo, e que ilhas mais pequenas a ligassem à Europa, a África e, talvez, às próprias costas britânicas.

Tratando da improbabilidade de uma ilha como a Atlântida ter alguma vez existido, Mr. W. H. Babcock objecta que[5]: “Os defensores de uma Atlântida real tentam acumular provas de uma grande massa terrestre que existiu em dada altura no Oceano Atlântico, um procedimento lógico, em certa medida, mas que falha no seu objectivo, pois essa terra pode ter ascendido e descido novamente eras antes do suposto período da Atlântida. É inútil demonstrar a sua presença nas épocas do Mioceno, Plioceno ou Pleistoceno, ou, na verdade, em qualquer altura anterior ao desenvolvimento de uma Sociedade bem organizada entre os homens, ou, como Platão aparentemente conclui, entre onze mil e doze mil anos atrás. Além disso, o que se pretende são evidências da grande ilha da Atlântida, não da anterior extensão para o mar de algum continente existente, nem de qualquer ponte de terra que cruzasse o oceano. É verdade que estas condições podem servir como preliminares distantes para a produção da Ilha da Atlântida, através da separação e submersão do território intermédio, mas isto apenas multiplica os cataclismos a demonstrar, e não pode ter qualquer verdadeira relevância na ausência de provas da existência da ilha em si mesma. Os fenómenos geológicos e geográficos das eras pré-humanas estão fora de questão. A lenda que se pretende investigar é a de um território insular desenvolvido, com uma Sociedade humana artificial em larga escala, há não muitos milhares de anos, evidentemente desprovida de qualquer tradição de submersão e, portanto, não a temendo, enviando antes os seus exércitos conquistadores, até à derrota final e ao Cataclismo aniquilador.”

Mapa com a possível localização da Atlântida
Mapa com a possível localização da Atlântida

O leitor pode observar que não tentei “acumular provas de uma grande massa terrestre que existiu em dada altura no oceano Atlântico”, para além das necessárias para lhe permitir seguir com clareza o argumento geral, mas sim que confinamos a maior parte das evidências geológicas à parte que fala da possível existência da Atlântida no período indicado pelo mito de Platão. No que diz respeito à parte da afirmação de Mr. Babcock relativa à “Sociedade humana em grande escala” que se encontraria na Atlântida, nunca subscrevi esta ideia, tendo indicado, em obras anteriores, que acredito que a Sociedade humana que a Atlântida alardeava seria de natureza relativamente primitiva[6]. O protagonista da teoria da Atlântida não precisa de se apoiar unicamente nas evidências de Platão, como Mr. Babcock parece pensar. Fazê-lo limitaria indevida e desnecessariamente a esfera tanto das provas como das investigações.

As sondagens efectuadas no Atlântico por várias autoridades do almirantado revelaram a existência de um grande banco ou elevação que começa perto da costa da Irlanda, atravessada pelo paralelo cinquenta e três, e que se estende para sul, abarcando os Açores, até às imediações da Guiana Francesa e à foz dos rios Amazonas e Pará. Esta grande crista está a um nível cerca de nove mil pés acima do leito do Atlântico. Sondagens efectuadas pelas várias expedições dos navios Hydra, Porcupine e Challenger, durante o Século XIX, sustentam particularmente a hipótese da anterior existência de terra na região atlântica.

Relativamente à relação dos bancos submarinos do Atlântico Norte com o problema, Mr. W. H. Babcock escreve: “Todos estes picos montanhosos subaquáticos, ou planaltos elevados ocultos, estão notoriamente mais perto da superfície do oceano do que as verdadeiras profundezas do mar — tão mais perto que despertam inevitavelmente a suspeita de terem estado acima da superfície numa época dentro do conhecimento e da memória do homem. É sabido que as costas se elevam e descem em todo o mundo, naquilo a que se pode chamar a acção não-espasmódica normal dos estratos, e por vezes o movimento numa direcção — ascen­dente ou descendente — parece ter persistido durante muitos séculos. Se presumirmos que o banco de Gettysburg tem estado a descer continuamente, à velocidade nada extravagante de sessenta centímetros por século, então terá sido uma ilha de tamanho considerável, acima de água, aproximadamente no período mencionado pelos sacerdotes de Saís. Aparentemente, a ascensão de Labrador e da Terra Nova desde a última recessão e dispersão do grande lençol de gelo tem sido ainda maior. Aqui faltam-nos os elementos de comparação exacta, no tempo e nas condições; ainda assim, a ascensão descrita, de mais de cento e cinquenta metros num quadrante e quase duzentos noutro, é impressionante, mostrando o que a velha terra pode fazer com um esforço constante. Devemos também ter em mente que, uma súbita aceleração da descida do banco de Gettysburg e dos seus acompanhantes, pode muito bem ter ocorrido em qualquer fase, numa área tão febrilmente sísmica. Tudo somado, parece longe de ser impossível que alguns destes bancos possam ter sido visíveis e mesmo habitáveis em dada altura, quando o homem tinha alcançado já um grau civilizacional moderado. No entanto, não teriam uma extensão muito vasta.”[7]

Mas temos evidências ainda mais valiosas de outras fontes, para além da geologia. As evidências proporcionadas pela investigação biológica são ainda mais notáveis. O Professor Scharff, no seu trabalho já citado, deixa bem claro que os maiores mamíferos das ilhas do Atlântico não foram importados, e afirma que os seus esforços para determinar “a História da sua origem nas ilhas apontam antes para que alguns deles, pelo menos, tenham lá chegado da forma normal, ou seja, através de uma ligação terrestre com a Europa“.

Falcão dos Açores
Falcão dos Açores

A presença de grandes falcões ou açores, observada pelos descobridores dos Açores em 1439, levou a que as ilhas recebessem o nome de Açores. Estas aves vivem geralmente de ratos, ratazanas e pequenos coelhos, e isto implica a existência destes mamíferos nas ilhas. Parece estar comprovado que a existência dos Açores já era conhecida de navegadores anteriores, pois num livro publicado em 1345 por um monge espanhol faz-se referência aos Açores, e é mesmo dado o nome das várias ilhas. Num atlas publicado em Veneza, em 1385, algumas das ilhas são mencionadas pelo nome, como Capraria, ou Ilha das Cabras, actualmente São Miguel; Columbia, ou Ilha das Pombas, actualmente Pico; Li Congi, Ilha dos Coelhos, actualmente Flores; e Corvi Marini, ou Ilha dos Corvos Marinhos, actualmente Corvo. Esta nomenclatura anterior à descoberta — isto é, à descoberta “oficial” das ilhas — parece justificar a presunção de que mamíferos como a cabra selvagem e o coelho floresciam nas ilhas nesse período, tendo-as alcançado através de uma ligação terrestre com a Europa numa era mais remota.

Certos zoólogos, diz o Professor Scharff, reconhecem uma divisão distinta da área marítima do globo que consiste da porção central do Atlântico, a que chamam “Mesatlântico“. Dois géneros de mamíferos são considerados característicos desta região — o Monachus, ou foca-monge, e o sirénio manatim. Nenhum destes animais frequenta o oceano aberto. As suas várias espécies habitam o Mediterrâneo, as índias Ocidentais e as costas e estuários do litoral da África Ocidental e do Sudeste da América. O alcance destes animais marítimos parece implicar, para muitos zoólogos, que os seus antepassados se espalharam ao longo de uma linha costeira que unisse anteriormente o Velho e o Novo Mundo num período não muito distante.

A fauna reptiliana das ilhas do Atlântico é quase totalmente europeia, na sua natureza. Entre os lagartos, está aliada uma forma norte-africana e chilena. A grande família dos Amphisbaenidae está absolutamente confinada à América, África e região mediterrânica. Na sua monografia sobre os moluscos das ilhas atlânticas[8], Mr. T. V. Wollaston chama a atenção para o facto de o elemento mediterrânico ser muito mais detectável nas Canárias do que em qualquer outro grupo de ilhas. Ele crê que as ilhas atlânticas tiveram origem na separação de um território que foi em tempos mais ou menos contínuo, e que terá sido intercolonizado ao longo de cristas e extensões de terreno agora submersas.

O Professor Simroth, escrevendo sobre as semelhanças entre as lesmas de Espanha, Portugal, norte de África e Canárias, conclui que havia provavelmente uma grande ligação terrestre entre estes quatro territórios, e que essa deve ter persistido até uma época relativamente recente. O Dr. W. Kobelt, que anteriormente ridicularizou a teoria atlante, veio mais tarde a alterar as suas opiniões. Comparando a fauna europeia com a das índias Ocidentais e da América Central, ele observa que as conchas terrestres em lados opostos do Atlântico implicam sem dúvida uma antiga ligação entre o Velho e o Novo Mundo, que se terá quebrado apenas perto do final do período Terciário. O Dr. Von lhering sublinha o facto de nenhum malacologista nos dias de hoje poder explicar a presença destes moluscos continentais nas ilhas atlânticas de outra forma que não através da progressão por terra.

Mariposa
Mariposa

Sessenta por cento das borboletas e mariposas encontradas nas Canárias são de origem mediterrânica, e vinte por cento destas encontram-se também na América. Alguns crustáceos oferecem provas da justiça da hipótese atlante. O género Platyarthus é representado por três espécies na Europa Ocidental e no Norte de África, uma nas Canárias e uma na Venezuela. “Existe” diz Scharff, “outro grupo de crustáceos que fornece uma indicação tão decisiva da anterior ligação por terra entre a África e a América do Sul, que praticamente não é necessário mais nada para dar uma base firme a essa teoria. O grupo a que nos referimos é o dos decápodes de água doce, uma espécie que revela uma afinidade admirável de ambos os lados do Atlântico.”

Experiências efectuadas demonstraram que certos caracóis não conseguem suportar uma imersão prolongada em água do mar. No entanto, estas espécies encontram-se igualmente na Europa, na América e nas Ilhas Canárias. É portanto evidente que devem ter progredido por terra. Poderiam ser traçados muitos paralelos semelhantes com a vida vegetal, se o espaço o permitisse.

Ao mesmo tempo, há biólogos que refutam absolutamente a ideia de uma ponte terrestre entre o Velho e o Novo Mundo, e que acreditam que os tipos do Velho Mundo chegaram à América através do Estreito de Behring. Contudo, o autor considera esta hipótese muito mais difícil de aceitar do que a hipótese atlante. As conclusões alcançadas numa obra anterior, com o auxílio destas evidências, foram as seguintes:

Um grande continente ocupou anteriormente toda a região do Atlântico Norte, ou a maior parte dela, e parte considerável da sua bacia sul. Sendo de origem geológica antiga, deve, no decorrer das sucessivas eras, ter passado por muitas alterações a nível de contornos e de massa, provavelmente passando por frequentes submersões e emergências.

Na época do Mioceno (final do Terciário), esta massa ainda mantinha a sua natureza continental mas, para o final desse período, começou a desintegrar-se, devido a uma sucessiva actividade vulcânica e a outras causas.

Esta desintegração teve como resultado a formação de várias massas insulares, maiores e menores. Duas destas, consideravel­mente maiores do que qualquer uma das outras, situavam-se (a) a uma distância relativamente curta da entrada do Mediterrâneo; e (b) na região das actuais ilhas da índia Ocidental. Podemos chamar-lhes, respectivamente, Atlântida e Antilha. A comunicação entre elas era possível através de uma cadeia de ilhas.

Estas duas ilhas-continentes, e a cadeia de ilhas que as ligava, persistiram até ao final do Pleistoceno, altura em que (há cerca de vinte e cinco mil anos, ou no início da época pós-glaciar) a Atlântida parece ter passado por uma maior desintegração. O desastre final parece ter-se abatido sobre a Atlântida por volta de 10.000 a. C. A Antilha, por outro lado, parece ter sobrevivido até um período muito mais recente, e ainda existe, fragmentariamente, no grupo antilhano, ou ilhas da índia Ocidental.

Se aceitarmos estes dados como prova, tão substancial como seria de esperar, dadas as circunstâncias, da existência da Atlântida a determinado ponto dentro dos últimos doze mil anos, podemos agora prosseguir para a consideração da sua localização exacta.

Uma das teorias mais populares relacionadas com a localização da Atlântida é aquela que a faz coincidir com a área do mar dos Sargaços. Embora o mar dos Sargaços seja uma das partes mais facilmente acessíveis da superfície do planeta, o que é uma das suas características permanentes e notáveis, parece existir uma maior incerteza relativamente à sua natureza do que no caso dos picos do Evereste, ou do deserto de Gobi.

O facto de a lenda se preocupar tanto com esta grande extensão do oceano Atlântico, um continente flutuante de algas, não mais afastado das costas dos Estados Unidos do que a baía da Biscaia dista das nossas costas, deve-se essencialmente à ignorância popular sobre as questões de oceanografia.

Mapa do Mar dos Sargaços
Mapa do Mar dos Sargaços

Em anos relativamente recentes, têm circulado os mais extraordinários relatos sobre o aprisionamento nos vastos campos de algas do mar dos Sargaços de frotas inteiras de embarcações antigas e modernas, desde os trirremes de Tyre aos cargueiros a vapor. Trata-se, naturalmente, de exageros grosseiros que nascem de persistentes tradições de séculos. O mar dos Sargaços é, de facto, evitado pelas embarcações, por mais do que uma razão. Mas é seguro dizer-se que nenhum transatlântico moderno poderia possivelmente ficar preso nas suas luxuriantes massas de vegetação, se desejasse atravessá-las. Mas, como vimos, existem fortes evidências de que, em tempos mais remotos, as embarcações tinham muito mais dificuldades em navegar no mar dos Sargaços, se não fossem apanhadas nas suas malhas.

O mar dos Sargaços ocupa uma área de pelo menos 3.000.000 de milhas quadradas, abarcando uma extensão que vai do 30º paralelo de longitude até às Antilhas, e do 40º ao 20º paralelos de latitude. Esta área, na verdade, refere-se apenas à porção do mar que contem pelo menos cinco por cento de algas. Mas a região natural do Mar dos Sargaços, estimada não apenas pela ocorrência de sargaços, mas também pela predominante ausência de correntes e pela temperatura relativamente elevada da água a todas as profundidades, é pelo menos de 5.400.000 milhas quadradas, uma área pouco inferior a metade do continente europeu.

A alga característica desta extensão oceânica quase única pertence às algas castanhas, denominadas Sargassum baciferum, mais coloquialmente conhecidas como sargaços. São facilmente reconhecíveis pelas suas pequenas bexigas semelhantes a bagas, e crê-se que a área é continuamente reabastecida por quantidades adicionais arrancadas à costa Norte-americana pelas ondas, e transportadas pelas correntes até se acumularem no grande redemoinho atlântico que rodeia o mar dos Sargaços. Pensa-se que as algas nas zonas mais antigas perdem gradualmente a sua capacidade de flutuar e perecem ao afundar-se em águas mais profundas. Ficam cobertas de manchas brancas de polizoários e vermes que vivem em tubos calcários retorcidos, e pequenos peixes, caranguejos, camarões e moluscos habitam essa massa, todos exibindo uma admirável coloração adaptativa, embora nenhum deles pertença naturalmente ao mar alto.

A expedição Arcturus, sob direcção do Dr. Beebe, da Sociedade Zoológica de Nova Iorque, que está presentemente a investigar estas misteriosas extensões de oceano atravancado por algas, enviou há algum tempo um radiograma para os jornais de Nova Iorque relativo à descoberta de vidro, rocha vulcânica e depósitos de esponjas no leito do mar dos Sargaços. O principal objectivo da expedição é determinar se as algas de que o mar dos Sargaços é composto são trazidas de terra ou se propagam por si próprias e examinar e fotografar as estranhas formas de vida que as habitam.

O que é certo é que o mar dos Sargaços é domicílio de uma miríade de criaturas marítimas — peixes, crustáceos, moluscos, desde os provavelmente gigantescos até aos infinitamente pequenos. É local de alimentação de muitas espécies de aves. Alguns cientistas supõem que, à medida que a camada superior desta zona do mar morre e se afunda, deve suportar uma grande e maravilhosa vida nas profundezas, a vários níveis. Estes níveis, até ao mais baixo, irão agora ser explorados com a ajuda de redes de arrasto, dragas, ganchos, armadilhas e outros instrumentos. Serão recolhidos espécimes vivos e mortos. Peixes das maiores profundezas, que explodem quando são trazidos à superfície, serão recolhidos em aparelhos pressurizados e mantidos vivos em tanques especiais.

A presente atitude da Ciência em relação ao problema do mar dos Sargaços pode ser resumida pelas palavras do tenente J. C. Soley, da Marinha dos EUA, que, na sua «Circulation of the North Atlantic», diz que o ramo sudeste da corrente do Golfo “corre na direcção dos Açores, onde é desviado pela corrente fria e ascendente do Norte, correndo para o centro da bacia do Atlântico, onde se perde nas águas mortas do mar dos Sargaços“. Comen­tando este facto, o Gabinete Hidrográfico dos EUA observa: “Através das forças dinâmicas que derivam da rotação da Terra, causando que as massas em movimento no hemisfério Norte sejam desviadas para a direita do seu curso, as algas transportadas pela corrente do Golfo desde os mares tropicais são dirigidas no sentido da corrente circulatória que se move, no sentido dos ponteiros do relógio, em torno da parte central do Atlântico Norte. Nesta parte central o curso das águas à superfície não é constante em qualquer direcção, e portanto as algas flutuantes tendem a acumular-se nesse local. Esta acumulação é talvez mais observável na região triangular delimitada pelos Açores, as Canárias e as ilhas de Cabo Verde, mas encontram-se também muitas algas a Oeste da parte central desta região, numa zona alongada que se estende até ao 70 meridiano. A quantidade de algas no mar dos Sargaços flutua bastante com a variação dos eventos que justificam a sua presença, mas este gabinete não dispõe de registos autênticos que provem que alguma vez tenha chegado a retardar materialmente embarcações”.

É óbvio que esta declaração é influenciada pelas condições dos dias de hoje. Se as gigantescas massas de algas do mar dos Sargaços, semelhantes a cordas, dificilmente conseguiriam impedir o progresso de navios a vapor modernos, equipados com hélices poderosas, podem bem ter travado os remos das galés, dos quais os navegadores da antiguidade e da época medieval dependiam forçosamente em alturas de calmaria. Também é pouco credível que pequenas embarcações à vela conseguissem ultrapassá-las livremente com vento normal. Como vimos, existe um grande corpo de testemunhos de que, na antiguidade, o Atlântico não era navegável e o mar dos Sargaços ocupava anteriormente uma área muito maior. Se os sargaços não causassem qualquer obstrução, seria difícil explicar os avisos e queixas dos escritores geográficos da antiguidade. Hoje em dia, quando as rotas e caminhos oceânicos estão traçados para os navios com tanta precisão, e os capitães das embarcações à vela aprenderam que áreas do mar é melhor evitar, dificilmente se pode esperar relatos de entraves. Mas há garantidamente alguma base para a prolongada má reputação do mar dos Sargaços.

Mar dos Sargaços
Mar dos Sargaços

Recordemos que Platão, no seu «Crítias», ao falar do afun­damento do continente da Atlântida sob as ondas, observa que “o mar nessas regiões tornou-se intransponível. As embarcações não conseguem lá passar devido às areias que se estendem sobre a ilha submersa.” “Deve ser evidente” diz Mr. W. H. Babcock, no seu «Legendary Islands of the Atlantic», “que Platão não o teria escrito a menos que estivesse a basear-se na reputação generalizada e estabelecida de difícil navegação nessa parte do oceano.”

Maury, que escreveu por volta de 1850, descreve o mar dos Sargaços como “tão espessamente coberto de sargaços que a velocidade das embarcações que passam por ele é muitas vezes retardada. A olho nu, a pouca distância, a vegetação parece suficientemente substancial para se poder caminhar sobre ela. Vêem-se sempre zonas de algas a flutuar ao longo da corrente do Golfo. Ora, se pedaços de cortiça ou palha, ou qualquer outra substância flutuante, fossem colocados numa bacia e se conferisse à água um movimento circular, todas as substâncias leves se reuniriam perto do centro, onde o movimento é menor. O oceano Atlântico é uma bacia destas para a corrente do Golfo; e o mar dos Sargaços é o centro do redemoinho. Colombo foi o primeiro a encontrar este mar de ervas nas suas viagens de descoberta; aí permaneceu até aos dias de hoje, deslocando-se para cima e para baixo e mudando de posição, como as calmarias de Câncer, conforme as estações, as tempestades e os ventos. Observações exactas dos seus limites e do seu alcance, remontando a mais de cinquenta anos atrás, garantem-nos que a sua posição média não se alterou desde essa altura.”

Uma tradição venerável associa o Mar dos Sargaços com o continente afundado da Atlântida, e inúmeros escritores afirmaram a sua crença de que é nesta área que se encontra a anterior localização da ilha submersa de Platão. Seja qual for o caso, as algas do Mar dos Sargaços parecem existir há milhares de anos. Algas da mesma espécie das encontradas no mar dos Sargaços podem encontrar-se também no oceano Pacífico, a oeste da Califórnia, onde se sabe que existiu anteriormente uma massa de terra. Parece evidente que, por baixo do mar dos Sargaços, há submersa uma extensão de terra que em tempos esteve acima de água. O grande banco cartografado pelas várias expedições que empreenderam o levantamento topográfico do Atlântico na parte final do século, nos navios Hydra, Porcupine, Challengere Dolplvn, tem relações parciais com a área do mar dos Sargaços. Este banco começa num ponto a sul da costa da Irlanda, é cruzado pelo 53º paralelo, e estende-se, numa área que abarca os Açores, em direcção à costa africana. O nível geral desta grande crista ou planalto é de cerca de nove mil pés acima do leito do Atlântico. Outros grandes bancos estendem-se da Islândia quase até à costa sul-americana, onde se juntam ao antigo território submerso da Antilha. É precisamente por cima da área onde os grandes planaltos submersos convergem, ou seja entre o 40º e o 60º paralelos de longitude, e o 20º e 40º paralelos de latitude, que as algas do mar dos Sargaços são mais densas. Parece haver também boas evidências de que as algas se propagam por si próprias, e não derivam das costas norte-americanas através da corrente do Golfo, como os oceanógrafos pensaram em tempos. Mas, muito provavel­mente, a questão será esclarecida pelo relato da expedição Arcturus, cujas investigações dificilmente deixarão de nos esclarecer em relação a um dos fenómenos mais curiosos do mundo marítimo, no que diz respeito aos mistérios mais profundos e sobre os quais sabemos tão pouco.

Admitamos que existem evidências fiáveis suficientes para presumirmos que a área do mar dos Sargaços coincide com a área da Atlântida submersa. Certamente que seria desejável maior número de evidências que comprovassem que as algas de que é composto estão, de alguma forma, relacionadas com os detritos do continente afundado. Não só a coincidência de áreas entre o Mar dos Sargaços e a localização tradicional da Atlântida apoia esta hipótese como ela parece ser reforçada pela antiguidade das alusões clássicas à acumulação de algas no mar dos Sargaços e à área, obviamente mais vasta, que ocupou em tempos antigos.

Temos aqui, claro, de considerar a localização da Atlântida apenas durante a fase da sua existência em que foi ocupada por vida humana. Praticamente todos os geólogos concordam, como sabemos, que na era do Mioceno, ou finais da era Terciária, ainda conservava a sua natureza continental, ocupando toda ou a maior parte da região do Atlântico Norte, mas muitos acreditam que terá desaparecido durante essa era. Outros, a cujas opiniões aderimos, pensam que, no final do período em questão, começou a desintegrar-se, por causas vulcânicas e sísmicas. Esta desintegração, segundo cremos, resultou na formação das ilhas de Atlântida e Antilha. Podemos, para já, deixar esta última fora das nossas considerações. Qual, exactamente, era a posição geográfica e a localização da ilha conhecida como Atlântida, no período em que a sua população original, a raça Cro-Magnon, começou a deixá-la e a partir para solo europeu?

A ilha, diz Platão, (1) estava situada em frente das Colunas de Hércules, zona também conhecida como estreito de Gibraltar; (2) era maior do que a Líbia (o nome grego para a África Mediterrânica) e a Ásia (apenas a Ásia Menor, no tempo de Platão) juntas. Isto dar-lhe-ia uma área, aproximadamente, de 2,650.000 milhas quadradas, ou seja, cerca de 350.000 milhas menos do que a Austrália. Supondo que se encontrava, como Platão diz, directamente em frente, e não muito distante, das costas hispano-africanas (como parece implicar o facto de parte dela se chamar “Gadírica“), então temos de pensar numa massa terrestre que se estendia para oeste pelo menos até ao 45º paralelo de longitude, e de norte para sul, quase desde o 45º paralelo de latitude até próximo do 22° paralelo de latitude. Esta área abarca não só os Açores e as Ilhas Canárias, mas também grande parte do mar dos Sargaços, embora não a parte mais densa, e fica directamente por cima dos grandes bancos que rodeiam os Açores e as Canárias. Se considerarmos as Canárias como a sua extremidade Sudeste (e a ilha não podia prolongar-se muito mais nesta direcção sem tocar na costa africana) e os Açores como o limite Norte da massa terrestre atlante no período em questão, e a prolongarmos para oeste até ao 45º paralelo de longitude, temos não só uma área proporcional à mencionada por Platão mas também com as características naturais que demonstram de forma notável a sua anterior presença. Parece também provável que a área original da Atlântida possa ter coincidido com a totalidade da área do mar dos Sargaços.

Isto, é claro, refere-se, como mencionei, à “última fase” da Atlântida, de 23.000 a. C. a cerca de 9.600 a. C., altura em que finalmente submergiu, segundo Platão. Naturalmente que pode ter passado por alguma redução territorial durante esse período, como aconteceu certamente durante o período antecedente, mas com certeza que Platão devia ter ao seu dispor alguma informação de carácter concreto que lhe permitisse fazer uma afirmação tão claramente de acordo, como demonstrei, com as características naturais da bacia do Atlântico, submarinas e supramarinas. Não me parece que Mr. W. Scott-Elliot, no seu interessante livro «The Story of Atlantis», ou M. Gattefossé no seu «La Verite sur L’Atlantide», tenham tido estas características em suficiente consideração, juntamente com o relato de Platão, para enquadrar os excelentes mapas que acompanham os seus argumentos. A última fase da Atlântida, segundo o mapa de Mr. Scott-Elliot, é um mundo afastado da costa hispano-africana, como nunca poderia ter sido, tendo em conta a anterior existência da “plataforma” africana e as afirmações de Platão, e o mesmo se aplica ao mapa conjectural de M. Gattefossé da Atlântida na era Terciária. Se a ilha-continente ficava “em frente da boca do estreito”, como diz Platão, e as areias movediças deixadas pela sua submersão dificultavam a navegação na entrada do estreito, como afirmam Aristóteles e Scylax de Carianda, então a ilha que causou estes detritos devia logicamente estar muito próxima do estreito de Gibraltar.

O mapa conjectural de Bory de St. Vincent, que foi compilado a partir não só do relato de Platão mas também do de Diodoro Sículo, parece estar mais em consonância com os factos tal como são expostos por estes autores, mas creio que devia sem dúvida mostrar a Atlântida mais alongada para Norte, de modo a ficar de frente para o estreito de Gibraltar, e mais “sob o Monte Atlas“, como Diodoro a coloca. Além disso, este mapa não mostra qualquer proximidade com a região “Gadírica” de Espanha.

A mais recente teoria em relação à localização da Atlântida pertence a M. F. Butavand, e é exposta na sua «La Veritable Histoire de L’Atlantide» (Paris, 1925). Ele crê que a Atlântida se situava dentro do estreito de Gibraltar e que era, na verdade, uma porção da antiga costa do que é hoje Tunes e Trípoli. Ele pensa que o “mar” a que Platão alude como sendo oposto à Atlântida é o mar Tirreno e lança algumas dúvidas sobre a cronologia de Platão. Os argumentos — hidráulicos e oceanográficos — nos quais apoia a sua teoria são tão admiráveis quanto engenhosos, e ele identifica várias ilhas actualmente existentes ao largo da costa submersa de Trípoli como aquelas a que Proclus faz alusão, no seu comentário do Timeu, como sendo contíguas à Atlântida. Aduz ainda provas de que esta parte do Mediterrâneo era particularmente difícil de navegar, e argumenta que devia ser esta a localização especial a que o sacerdote de Saís tanto faz alusão. Socorre-se ainda de evidências filológicas, e consegue envolver na sua tese a história da travessia do mar Vermelho pelos israelitas! Contudo, por mais interessante e engenhoso que seja o seu ensaio, devemos considerar que dificilmente contribui para a clareza do estudo atlante.

Uma das últimas configurações do Mapa da Atlântida, segundo Scott Elliot
Uma das últimas configurações do Mapa da Atlântida, segundo Scott Elliot

E em que circunstâncias o oceano Atlântico ficou conhecido pelo nome de Atlas? Não terá sido porque as tradições da Atlântida, a ilha-continente que em tempos ocupara uma considerável porção desse oceano, sobreviveram até tempos históricos? Atlântida é a forma genitiva ou possessiva de Atlas, significando “de Atlas“, e “Atlântico” é apenas o adjectivo correspondente. O dicionário mais à mão define-o como “relativo a Atlas“. O dicionário de Skeat define-o como «derivado de Monte Atlas […] da forma original Atlanti». O nome Atlas significa “o sustentáculo, ou portador”, a partir da raiz do sânscrito “tal”, “suportar”. Mas — há sempre um “mas” nestas questões — parece extraordinário que a ilha de Atalanta, perto de Euboea, a maior ilha do mar Egeu, tenha uma história algo semelhante à da Atlântida. Estrabão, no seu «Primeiro Livro» (3.20.), diz: “E dizem também, da Atalanta perto de Euboea, que nas suas partes centrais, porque foram separadas, havia um canal para os navios através da separação, e que algumas das planícies eram inundadas por vezes a uma distância de vinte estádios, e que um trirreme podia ser erguido das docas e arremessado por cima da muralha.” Diodoro Sículo diz que a ilha Atalanta fora em tempos uma península, e que se separara do continente devido a um terramoto. Ora, ambos os escritores se referem obviamente a um terramoto que ocorreu em 426 a. C., o ano antes do nascimento de Platão. Platão, portanto, devia ter conhecimento desta ocorrência. Havia também uma tradição, na ilha vizinha de Euboea, de que o local fora separado de Boeotia por um terramoto.

“O epíteto Atlântico” diz o Dr. Smith no seu «Classical Dictionary», “era-lhe aplicado devido à posição mítica de Atlas sobre as suas costas”. Isso significa que foi baptizado a partir do nome do deus ou titã Atlas. Mas em que data foi assim chamado pela primeira vez? Homero alude a ele no “Oceanus“. O próprio Platão chama-lhe “Atlântico“, como se fosse um nome com o qual estivesse bem familiarizado.

Podemos então concluir que a ilha-continente da Atlântida, na altura da sua submersão, se estendia de um ponto perto da entrada do Mediterrâneo até ao 45º paralelo de longitude, e de norte para sul, quase do 45º paralelo de latitude até perto do 22º paralelo de latitude.

NOTAS:

[1] Ver tradução do seu ensaio no relatório anual do Instituto Smithsoniano, de 1915.

[2] Em «The Geographical Review», vol. 3, 1917, p. 65

[3] «Some Remarks on the Atlantis Problem», Proc. Royal Irish Academy, Vol. 24, 1902.

[4] The Sub-Oceanic Physiography of the North Atlantic.

[5] Legendary Islands of the Atlantic, p. 19.

[6] Embora, mais à frente, eu venha a aduzir razões sólidas que mostram que a civilização da Atlântida pode, na verdade, ter tido uma natureza relativamente elevada.

[7] Os itálicos são meus. (N. da A.)

[8] Testacea Atlantica, Londres, 1878.

Fonte: LIVRO: «A História da Atlântida» de Lewis Spence

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