A sempiterna “velha nova” Microsoft e o novo Acordo Ortográfico

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As vertentes ortográficas do Windows 10

Findo o reinado dos PCs, a Microsoft viu-se destronada do monopólio informático que deteve durante perto de 20 anos. Se o iPhone sangrou o seu Windows Mobile, o Android da Google arrasou-lhes qualquer hipótese de sucesso no mercado dos telemóveis.

À Microsoft resta apegar-se ao Windows como último reduto do seu poderio informático. Mas o Windows 8 foi o fiasco que foi e a Microsoft não teve alternativa senão apressar uma versão nova para o substituir.

Entra o Windows 10.

O Windows 10 era suposto fazer com que “os utilizadores voltassem a amar o Windows”. Era suposto ser construído com base no feedback dos “Windows Insiders” e era suposto ser para todos.

Todos deveriam incluir os portugueses. E especialmente a maioria dos portugueses que recusa aquilo que se pode (e deve) chamar de “Aborto Ortográfico de 1990“.

Como o Windows 8 foi lançado em “acordês”, e já que o Windows 10 era tão “construído pelos utilizadores”, o natural foi pedir à Microsoft que disponibilizasse o Windows 10 com a opção de escolher duas variantes ortográficas: aquela em bom português pré-AO90 e aquela outra em “acordês”. Para tal, tomamos a iniciativa de requerer na página windows.uservoice.com que fosse dada a opção de escolha aos utilizadores. Note-se que se tratava de pedir uma opção. Nem sequer pedimos o que seria natural e sensato, que seria a abolição completa do uso do “acordês”.

7820 votos depois, a Microsoft decidiu que o Windows 10 não era para os utilizadores de bom português. A resposta?

Windows 10
Windows 10

“Queremos que o Windows 10 seja o melhor Windows para todos os consumidores portugueses. Compreendemos a importância de ter a ortografia portuguesa pré-reforma no Windows 10 e fizemos todos os esforços para o conseguir. No entanto, a Microsoft Corp. decidiu ter apenas uma ortografia do português no Windows 10, a pós-reforma que foi legalmente adoptada em Portugal. Caso ocorram mudanças significativas, como uma reversão na reforma nos próximos anos, sancionada pelo governo, a Microsoft Corp. pode reconsiderar esta decisão.” (a resposta original foi dada em Inglês).

E aqui temos, senhoras e senhores, a “nova Microsoft” que é exactamente igual à antiga. Uma corporação interesseira e obediente que se está nas tintas para os utilizadores desde que isso signifique ficar nas boas graças da corrupção estatal. Mas vamos por partes.

“Queremos que o Windows 10 seja o melhor Windows para todos os consumidores portugueses.”

Querem? Tem graça. Porque estava em crer que tinham acabado de recusar um pedido directo de milhares de utilizadores. Não. O que a Microsoft quer é que “o Windows 10 seja o melhor Windows para o estado português”.

“Compreendemos a importância de ter a ortografia portuguesa pré-reforma no Windows 10 e fizemos todos os esforços para o conseguir.”

Imaginamos que sim. Tal como também devem ter feito tudo para manter o atendimento ao consumidor em Portugal? Liga-se para o apoio ao consumidor da “Microsoft Portugal”, somos atendidos no Brasil. Encomenda-se um produto na loja online, este vem da Holanda. E as facturas… essas, claro, vêm da Irlanda. Não sei bem para que serve a Microsoft Portugal. Aventamos que para nada. E temos seríssimas dúvidas de que tenham feito mais do que influenciar a Microsoft Corp. nos EUA a recusar o pedido, só para agradar aos interesses estatais.

Microsoft Cop.
Microsoft Corp.

“No entanto, a Microsoft Corp. decidiu ter apenas uma ortografia do português no Windows 10, a pós-reforma que foi legalmente adoptada em Portugal”.

A equipa jurídica da Microsoft terá recebido os cursos a um domingo, por equivalência… ou nem sequer há uma equipa jurídica? “Legalmente adoptada”? Por obra de que lei ou decreto-lei (artigo 112.º n.1 da constituição)? E o que é que está “legalmente” em vigor? Um acordo que não foi ratificado por todos os estados? Um 2.º protocolo modificativo que também não foi? Um acordo que padece de um sem-número de inconstitucionalidades, a começar pelo dirigismo estatal da cultura? Um acordo que, depois da fantasia da sua vigência, tentam impor ainda mais cedo, aldrabando as contagens do “prazo de transição”? Um acordo que se prepara para ser rasgado pelo senado brasileiro para que possa ser “corrigido”? Um acordo que é recusado pela esmagadora maioria das populações?

Não, cara Microsoft Corp. O AO90 não está legalmente em vigor em Portugal. O AO90 está a ser imposto ilegalmente pela força coerciva do estado português. Mas o seu uso pelo estado não o torna legal. Também há corrupção no estado português…e não é por isso que a Corrupção passa a ser legal, sabiam? Se calhar não.

“Caso ocorram mudanças significativas, como uma reversão na reforma nos próximos anos, sancionada pelo governo, a Microsoft Corp. pode reconsiderar esta decisão”.

E aqui caiu-lhes a máscara. “sancionada pelo governo”. À Microsoft pouco importa a lei ou os utilizadores. O importante é ter a sanção do governo, seja ele qual for. Porquê? Ora, essa é a resposta fácil: a Microsoft tem negócios de milhares de euros com o estado português! Vão a uma repartição pública e que sistema operativo corre nos computadores? Windows. Vão a uma aula de ITIC numa escola e que sistema operativo é ensinado às crianças? Windows.

É claro que a Microsoft se está nas tintas para os utilizadores portugueses e para Portugal num todo. Há um utilizador português que interessa à Microsoft: o estado. Tudo o resto é praia e paisagem.

david-baptista_da_silva
David Baptista da Silva , Jurista e Politólogo

Por isso, não se deixem os utilizadores portugueses do Windows enganar. A “nova” Microsoft é igual à “velha”. E, para ela, vocês não existem. Por isso lanço daqui um apelo público: a todos os portugueses que correm o Windows 7 no seu PC, não adoptem o Windows 10.

Se o dinheiro é só o que conta, mostremos à Microsoft quem fala mais alto.

E àqueles que não tiverem alternativa, adoptem-no noutra língua qualquer. Podem escolher várias variantes de inglês, alemão, francês, espanhol… até de servo! Só de português é que não podem. Porque este é o novo mundo da “ortografia unificada”.

Resta saber como reagirá o governo de Angola a isto. Fosse eu chefe do governo angolano e a Microsoft não punha os pés em Angola até apresentar um Windows com a ortografia vigente no meu país e que é aquela mantida em todo o Mundo excepto no Brasil e no nauseabundo aparelho estatal português. Fica a ideia.

Ah! rezem é para que a “uma ortografia do português” no Windows 10 não seja o português brasileiro. As comunicações da Microsoft aos utilizadores portugueses já vêm com sabores de “VeraCruz” e lembrem-se que sai mais barato à Microsoft Corp. utilizar o português brasileiro em todo o lado do que manter o mínimo respeito pelos restantes utilizadores do português EuroAfroAsiáticoOceânico.

No fundo, as negociatas do estado é que mandam na vossa língua, portugueses. Não são vocês.

David Baptista da Silva
Jurista e Politólogo

Fonte: Público

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