O Manuscrito de Voynich

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Manuscrito Voynich
Manuscrito Voynich

Famoso por ser o livro mais misterioso do mundo, o Manuscrito de Voynich é um enigma com quinhentos anos. Foi escrito por um autor anónimo numa linguagem ininteligível e está coberto por símbolos inexplicáveis e ilustrações estranhas. 0 livro obteve o seu nome de Wilfred M. Voynich, um livreiro polaco-americano que o descobriu por acaso, em 1912, numa colecção de documentos antigos no Colégio Jesuíta de Frascati, perto de Roma.

O que torna o Manuscrito de Voynich intrigante é o facto de estar escrito numa linguagem alfabética única, cujas letras não se assemelham a qualquer sistema de escrita europeu. Este livro deixou perplexos os maiores criptógrafos do Século XX e ainda continua a fazê-lo. Depois de ter adquirido o livro em 1912, Wilfred Voynich fez dele várias cópias fotográficas e distribuiu-as por criptógrafos, peritos em linguagens antigas, astrónomos e botânicos, mas nenhum conseguiu perceber a estranha linguagem empregue no manuscrito. O Dr. William Romaine New-bold, da Universidade da Pensilvânia, estudante de filosofia e ciência medieval (e também um criptógrafo), pensou ter decifrado o código em 1919. Contudo, a sua interpretação foi mais tarde refutada. Durante a II Guerra Mundial, peritos americanos e britânicos na decifração de códigos estudaram o manuscrito mas não conseguiram decifrar uma única palavra.

A história do Manuscrito de Voynich é também apropriadamente misteriosa e invulgar. Pensa-se que pode ter pertencido originalmente ao excêntrico imperador Rudolfo II, da Boémia (15521612), de quem se diz que teria comprado o livro por volta de 1586 por seiscentos ducados de ouro (o equivalente a quarenta e cinco mil euros hoje em dia) a um vendedor desconhecido, que alguns sugeriram ter sido John Dee, um astrólogo e ocultista inglês que servia a rainha Isabel I. O que se sabe de certeza é que a assinatura do botânico, alquimista e médico pessoal de Rudolph, Jacobus Horcicky de Tepenecz, está presente no fólio. Ele morreu em 1622 e o proprietário seguinte identificado no livro é um alquimista chamado Georgius Barschius, que o apelidou de esfinge, referindo-se ao seu conteúdo enigmático que não conseguiu traduzir. Quando morreu, por volta de 1662, deixou o livro, bem como o resto da sua biblioteca, ao seu amigo Johannes Marcus Marci, que foi reitor da Universidade de Carlos, em Praga.

O manuscrito tem anexada uma carta datada de 1666, escrita em latim por Marci ao académico jesuíta alemão Athanasius Kircher, em Roma. A carta oferece o manuscrito a Kircher para ser descodificado e menciona que foi outrora propriedade do imperador Rudolfo II. Marci diz também que algumas pessoas acreditavam que o manuscrito fora escrito pelo frade franciscano e filósofo inglês Roger Bacon, que viveu entre 1214 e 1294, apesar de na carta ficar claro que o próprio Marci não estava convencido disso. O manuscrito tornou-se propriedade do instituto de Kircher, a Universidade Jesuíta Romana (o Collegio Romano), em cuja biblioteca deve ter permanecido até Vítor Emanuel II de Itália anexar os Estados papais em 1870, quando foi levado para o colégio jesuíta em Villa Mondragone, onde Voynich o descobriu em 1912. Depois de Voynich morrer, em 1930, o manuscrito foi herdado pela sua viúva, a escritora Ethel Lilian Voynich.

Depois da morte da viúva de Voynich, em 1960, o livro foi herdado pela sua amiga, Anne Nill. Em 1961, o negociante de livros antigos H. P. Kraus, de Nova Iorque, foi notícia quando lhe comprou o livro por vinte e quatro mil dólares. O manuscrito foi mais tarde avaliado em cento e sessenta mil dólares mas Kraus não o conseguiu vender e em 1969 doou-o à Universidade de Yale, onde ainda hoje é mantido na Biblioteca Beinecke para Livros e Manuscritos Raros.

O manuscrito em si mede cerca de quinze por vinte e dois centímetros e contém à volta de duzentas e quarenta páginas de pergaminho, mas pode ter tido mais de duzentas e setenta. O texto cifrado foi escrito à mão com uma pena, também utilizada para fazer o contorno das figuras toscamente desenhadas, às quais foi mais tarde adicionada uma espécie de tinta colorida. A maioria das páginas contém ilustrações coloridas a vermelho, azul, castanho, amarelo e verde, indicando que o livro está dividido em cinco partes, cada uma com assuntos diferentes. A primeira e mais longa secção, ocupando quase metade do volume, é conhecida como a secção Herbal. Cada página desta parte tem uma ou por vezes duas ilustrações de plantas, acompanhadas por alguns parágrafos de texto. As plantas nos desenhos nem sempre podem ser identificadas e algumas são provavelmente invenções imaginativas. A secção seguinte contém (entre outras coisas) desenhos de sóis, luas e estrelas e foi identificada como tendo uma natureza astronómica e astrológica. A seguir há uma secção chamada Biológica, pois contém algumas figuras aparentemente anatómicas, entre as quais pequenas mulheres nuas e tubos que fazem lembrar vasos sanguíneos. A quarta é uma secção que foi rotulada de Farmacêutica, pois contém imagens de raízes, folhas e outras partes de plantas, bem como recipientes com rótulos que podem ser frascos de farmácia. A quinta e última parte é a secção das Receitas, que contém vários parágrafos curtos, cada um marcado com uma estrela na margem; esta secção pode ter sido algum tipo de calendário ou almanaque. 0 livro termina com uma página que contém a Chave.

Algumas páginas do Manuscrito Voynich
Algumas páginas do Manuscrito Voynich

Em 1944, Hugh O’Neill, monge beneditino e botânico na Universidade Católica, identificou algumas plantas ilustradas no livro como sendo espécies das Américas, especificamente um girassol americano e um pimento vermelho. Isto significaria que o manuscrito tinha de ser de uma data posterior a 1493, quando Colombo trouxe as sementes para a Europa. Contudo, as ilustrações não são muito claras e algumas pessoas refutaram as identificações de O’Neill. Nos anos setenta deu-se um desenvolvimento interessante no que diz respeito ao manuscrito, pela mão do capitão Prescott Currier, um perito em criptologia das forças armadas dos EUA. Com base nas propriedades estatísticas do texto, ele identificou dois estilos distintos no manuscrito, que interpretou como duas linguagens separadas, a que deu as designações de A e B. Ele chegou à conclusão de que o manuscrito tinha sido escrito por pelo menos duas pessoas distintas, apesar de ser concebível que fosse redigido por um único indivíduo em épocas diferentes.

Houve muitas teorias acerca da língua utilizada no manuscrito, as suas origens e o seu propósito. Um dos nomes que mais vezes é proferido é o de Roger Bacon, um homem que enquanto vivo foi perseguido pelo que escreveu e pelas suas descobertas científicas, que menciona nas suas obras a necessidade de esconder alguns segredos em código. Como Marci mencionou na carta que o acompanhava que Bacon seria um possível autor do manuscrito, Wilfred Voynich tinha quase a certeza de que ele era o autor original e levou a cabo uma grande investigação histórica para tentar prová-lo. Ele descobriu que o Dr. John Dee tinha sido um grande coleccionador das obras de Bacon e que certamente visitara Rudolfo na época em que o manuscrito supostamente apareceu pela primeira vez. Os indícios de que as páginas do manuscrito haviam sido numeradas por Dee foram, contudo, refutados por muitos estudiosos de Dee. Além destes números nas páginas não há provas directas que liguem Dee ao manuscrito e ele não faz qualquer menção ao livro nos seus pormenorizados diários. No entanto, as ideias de Voynich tiveram uma grande influência nas posteriores investigações e tentativas de decifração. Em 1943, o advogado nova-iorquino Joseph Martin Feely publicou o livro «Roger Bacon’s Cipher: The Right Key Found», no qual afirma que Bacon escrevera o texto numa espécie de latim medieval altamente abreviado. Ninguém aceitou esta proposta e os peritos sobre a obra de Bacon que examinaram o Manuscrito de Voynich negaram a possibilidade da sua autoria.

Uma página do Manuscrito Voynich
Uma página do Manuscrito Voynich

O Dr. Leo Levitov, autor de «Solution of the Voynich Manuscript» (1987) afirmou ter decifrado o manuscrito e identificou-o como um manual litúrgico para a religião cátara, que existiu entre os Séculos XII e XIV. No entanto, a sua identificação foi contestada com base nas óbvias disparidades com as práticas conhecidas dos cátaros no Sul de França. No seu livro de 2004 «Pandora’s Hope», James Finn propôs que a língua do manuscrito era hebraico codificado visualmente. A sua engenhosa teoria afirmava que as palavras na cifra são as mesmas palavras hebraicas repetidas ao longo do texto sob formas diferentes. Por exemplo, ain, a palavra hebraica para olho, pode ser encontrada no texto como aiin ou aiiin, assim parecendo que estão a ser utilizadas palavras diferentes quando na verdade são variações do mesmo termo. Esta ideia explicaria porque têm tido os estudiosos e os criptógrafos tanta dificuldade em decifrar este texto. Por outro lado, a explicação de Finn significaria que haveria um vasto número de interpretações possíveis para o mesmo texto e assim uma grande probabilidade de o significado original ser mal interpretado ou mesmo perdido. Talvez esse fosse um risco que o autor original não estaria preparado para correr.

As repetidas tentativas malogradas de encontrar uma solução plausível para o mistério de Voynich deram-lhe uma talvez merecida aura de mistério impenetrável. Mas a indecifrabilidade, juntamente com as características mais bizarras do manuscrito, como a alta frequência da repetição de certas palavras e as suas ilustrações fantásticas, também levou alguns investigadores a tornarem-se desconfiados da sua autenticidade e até a suspeitarem de que se tratava de um elaborado embuste, talvez perpetrado pelo próprio Voynich. No entanto, esta última possibilidade pode ser descartada graças às provas escritas da existência do manuscrito muito antes de ser adquirido por Voynich.

Uma solução recente para o Manuscrito de Voynich, que aponta para o embuste, foi sugerida em 2003 pelo Dr. Gordon Rugg, um professor académico de informática na Universidade de Keele, em Inglaterra. Ele demonstrou que um texto, com características semelhantes às do Manuscrito de Voynich pode ser gerado aleatoriamente utilizando um método chamado Grelha de Cardano, inventado por volta de 1550 como uma forma de encriptar textos. Algumas pessoas acreditam que Edward Kelley, um médium espírita que trabalhava com John Dee, escreveu o manuscrito para o venderem ao imperador Rudolfo II, conhecido pelo seu interesse por objectos raros e fora do comum. Contudo, tal como foi mencionado antes, não há provas directas que liguem Dee ao manuscrito e o nome de Kelley parece ter sido avançado apenas porque, juntamente com Dee, ele utilizou e provavelmente inventou o enocjuiano, uma língua que foi alegadamente revelada a Kelley por anjos. Todavia, os estudos acerca desta língua oculta demonstraram que não tem qualquer relação com o conteúdo do Manuscrito de Voynich. O problema da conclusão de Gordon Rugg, ou de qualquer outra sugestão de que o Manuscrito de Voynich é um embuste, é que a análise estatística do livro revelou padrões semelhantes aos das línguas naturais. Por exemplo, o texto segue algo conhecido como a Lei de Zipf, que tem a ver com a frequência das palavras num texto. É improvável que um falsificador do Século XVI pudesse produzir um texto aleatório que estivesse dentro dos parâmetros destas leis básicas da linguagem.

O manuscrito parece então ser genuíno. Mas isso não nos aproxima mais da identificação do seu propósito. Hoje em dia o consenso geral é de que o livro foi escrito provavelmente na Europa Central, algures no Século XV ou no início do Século XVI. Houve quem sugerisse que se tratava de um livro sobre remédios herbais da Idade Média, um texto alquímico ou astrológico. Mas os exemplos conhecidos deste tipo de livro não se assemelham de forma alguma ao Manuscrito de Voynich. E certamente ninguém iria utilizar um código tão indecifrável a menos que a informação no texto fosse extremamente perigosa ou particularmente secreta. Se a origem do livro pudesse ser determinada com certeza, ou se a identidade da pessoa que o levou para a corte de Rudolfo II, em Praga, pudesse ser descoberta, então estaríamos talvez mais próximos de compreender o seu propósito. Em 2005, a totalidade do manuscrito foi publicada pela primeira vez em fac simile por um editor francês, Jean-Claude Gawsewitch, com o nome «O Código de Voynich». Hoje, através da Internet, centenas de estudiosos e amadores entusiastas trocam ideias e teorias sobre este misterioso manuscrito e há mais pessoas do que nunca a tentarem encontrar uma solução. Mas até agora este estranho livro tem-se recusado a entregar os seus segredos. Talvez o autor do Manuscrito de Voynich tenha inventado, de facto, uma cifra indecifrável.

Abaixo, providenciamos o endereço para consulta ou download do Manuscrito de Voynich.

PDF: https://archive.org/details/TheVoynichManuscript

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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